D&I: a Cultura de Dados e a Sensibilidade Humana como catalisadores de mudanças

publicado originalmente na revista Growth Strategy



Com a Internet e os avanços da tecnologia estamos imersos num mar de informações de todos os tipos, sejam elas quantitativas ou qualitativas, vindas de diferentes fontes e sobre assuntos plurais. É verdade as vezes que muitas delas nos parecem pouco pertinentes ou inúteis, que temos tempo escasso para acessá-las e compreendê-las no volume e velocidade com que chegam a nós e que ainda estamos sendo educados a interpretá-las adequadamente a favor do nosso desenvolvimento, da sociedade em que estamos inseridos e do planeta. Contudo, há um fato inquestionável: a informação é uma espécie de capital precioso no cenário atual.

Há quem diga, por exemplo, que dados são o novo "petróleo" ou "ouro" desses tempos em que vivemos, dada a sua relevância, pelo menos foi o que afirmou em meados de 2017 a The Economist, em matéria de capa, intitulada "Data is the new oil".



Talvez porque já desfrutamos hoje de inúmeros benefícios transformadores construídos a partir deles, como empresas ao redor do mundo focadas em investir em dados e análises. Não por acaso. Foi por meio deles que se entendeu, por exemplo, que 67% dos profissionais consideram a diversidade como um importante fator ao escolher um empregador (Glass Door, 2014), e que 53% dos Millennials deixariam seu atual emprego por uma empresa mais inclusiva (Deloitte, 2018). Ou seja, cada vez mais os dados se apresentam como evidências de grandes transformações sociais, bem como a faísca para impulsionar as mesmas.

Eles são cada vez mais considerados moeda valiosa na Era da Informação, apesar das muitas dúvidas e inseguranças que ainda orbitam ao seu redor. Isto é, se por um lado organizações e governos os utilizam como parâmetros para estratégias diversas, por outro, indivíduos levantam questões éticas e legais importantes sobre o seu uso.

Por exemplo alinhar o uso de dados numéricos às temáticas humanistas, algo que ainda gera ruídos, tendo em vista que por muito as ciências Humanas e Exatas foram vistas como antagônicas, sendo descoladas uma da outra, com a primeira e seu processo metodológico sequer vista como uma vertente científica. Além disso, carregamos resquícios míopes que opõem o empirismo e o racionalismo, propostas epistemológicas que foram entendidas como complementares tardiamente. Embora a herança histórica ainda permaneça viva em alguns sentidos no nosso dia a dia, esse diálogo é atualmente urgente às demandas vigentes.

Se impõem ainda, e por fim, os desafios normativos que nos deixam todos desconfiados pela ausência de tutela e limites sobre a aquisição e manipulação de material informacional qualitativo e quantitativo, sobretudo aqueles sensíveis e sigilosos - não obstante a tentativa regulatória da Lei Geral de Proteção de Dados. São todas estas questões complexas e que integram um processo paulatino, que iremos construir, desconstruir e desvendar ao longo dos anos, colaborativamente.

O que muda hoje e nos beneficia a todos, de acordo com Chad Gaffield, especialista e presidente do Social Science and Humanity Research Council (SSHRC), organização dedicada à pesquisa das Ciências Sociais no Canadá, é que o século XXI ficará conhecido como aquele em que a humanidade quis entender o seu próprio comportamento. Isto é, os dados prestam-se a olhar e compreender o humano. É somente desse modo, segundo ele, que poderemos acolher as mudanças da nossa sociedade, nos responsabilizar pelos rumos dela e, a partir disso, criar futuros melhores.

Para o universo corporativo, a cultura de dados é uma cultura de decisão, uma vez que a sua captura, curadoria, armazenamento, compartilhamento, análise, visualização etc. são insumos para a tomada de decisões, deste modo, mais precisa e inteligente. No presente, mais humanizada. Isso porque um dado pode ser o elemento inicial de qualquer ato de conhecimento. Contextualizado e interpretado, revela conjunturas e estruturas que agora podem ser decifradas a partir de um senso de propósito que apoie operações internas e externas, sem a expectativa do estabelecimento de uma linha de chegada, sobretudo se se compreender cedo a sociedade como um organismo vivo que muda no tempo e no espaço e que, portanto, o percurso será contínuo.

Talvez por isso se fale tanto em data literacy, ou leitura/alfabetização de dados, como uma habilidade do futuro. Fica explícito que, mais que uma predição corporativa, isso aponta à disposição interpretativa do mercado que agora importa-se igualmente com o 'o que', isto é, aquilo que os dados revelam, e o 'como', aquilo que pode ser feito a partir disso.

Sendo assim, enquanto método e em diálogo com perspectivas sensíveis, colaboram no estabelecimento de hipóteses, que podem ser orientadas à solução de problemas, ao desenho de objetivos, à agilização de processos, à inovações na gestão, ao desenvolvimento de vantagens competitivas, à antecipação de acontecimentos etc. E no caso da Diversidade e da Inclusão, a soma de dados com a sensibilidade humana representa avanços tangíveis para indivíduos e coletivos, para a esfera pública e a privada.

Na Diversitera, por exemplo, partimos do conhecimento da composição da população de cada organização, ou seja, levantamos seus dados. Depois, entendemos o quadro de colaboradores a partir de suas necessidades e motivações. Ao ouvir suas percepções, tornamos a experiência menos unilateral e mais participativa, mais propícia a se criar um ambiente diverso e inclusivo na prática.

Em nossos estudos, por exemplo, temos encontrado constantemente um percentual entre 8 e 12% de mães solo nas organizações. É um número. Mas será que essas mulheres podem estar sendo gerenciadas por homens jovens, solteiros e sem filhos? Será que isso deve ser uma preocupação da organização nas suas políticas de equidade de gênero? Outro dado que chama atenção é a recorrência de níveis mais baixos dos nossos indicadores de senso de pertencimento e conexão com a cultura organizacional no caso de pessoas com alguma deficiência e também LGBTQIAP+. Esses dados podem ajudar a evidenciar ou corroborar percepções de que há pessoas em maior vulnerabilidade dentro das organizações. E, a partir disso, traçar estratégias e ações que busquem uma melhoria desses cenários. As possibilidades são muitas, mas consistentes para quem quer agir em prol da mudança e do aperfeiçoamento.

É por isso que acreditamos que já podemos falar na construção de uma cultura que concilie Dados e Sensibilidade Humana, em que ambas tomam partido da coleta e interpretação de dados. Se uma quantifica e objetiva, a outra qualifica e subjetiva e, dessa maneira, o equilíbrio exigido pelo humano se estabelece. É assim que os dados são transformados em informações que, por sua vez, se tornam insights fundamentais para ações decisivas sobre a realidade, sempre ao nosso serviço.

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