OQÉ: O que é transfeminismo?


Foto: https://genderspectrum.vice.com/
por Ana Hining

Nos últimos anos, à medida que pessoas trans vêm ganhando visibilidade na sociedade, também os debates sobre temáticas relacionadas à identidade de gênero ganham espaço. Nesse contexto, o transfeminismo se fortalece como uma das correntes feministas - aqui importante frisar que o feminismo é um espectro amplo e heterogêneo, por isso poderíamos falar em os feminismo, no plural - que pauta as questões desse território, apontando limites e colocando desafios para o movimento.
Conforme Hailey Kaas (2015), transfeminista brasileira, o movimento transfeminista surgiu principalmente da articulação entre mulheres trans e travestis que se sentiam um tanto frustradas com o local de invisibilização e de exclusão que ocupavam no movimento feminista e LGBT+ – a ampliação da sigla para LGBTQIAP+ já reflete esse esforço de tornar o movimento menos voltado somente às questões de orientação sexual. Se no movimento feminista mulheres trans encontravam resistência por parte de mulheres cisgêneras que eram refratárias a sua participação, no movimento LGBT+ se viam marginalizadas em meio as pautas que se voltavam muito mais às questões de orientação sexual. Surge, assim, o transfeminismo, uma corrente protagonizada sobretudo por mulheres trans e travestis, que sentiram a necessidade de ter um espaço próprio para articular coletivamente suas agendas e demandas.
Embora apresente reivindicações e tenha características próprias, o transfeminismo tem um amplo espectro de diálogo com outras vertentes feministas, como o feminismo negro e interseccional. Nesse sentido, não tem como objetivo superar ou substituir outros feminismos, senão que visa a construção de coalizões com essas outras correntes para fazer avançar a política feminista de uma forma mais ampla e inclusiva, sendo uma de suas principais reivindicações a aliança entre mulheres cisgêneras e mulheres trans na luta por respeito e direitos para pessoas trans. Um dos argumentos utilizados pelas transfeministas que justificam esse distanciamento é que os demais feminismos tendem a alocar seus esforços no combate ao sexismo pensando esse enfrentamento sob o ponto de vista das mulheres cisgêneras. No entanto, as dinâmicas de poder que permeiam as questões de gênero não afetam apenas as relações entre homens e mulheres, elas incidem também sobre todo o espectro daquilo que se entende como sexualidades e identidades não normativas. Ou seja, o feminismo não pode se ater apenas às questões vinculadas ao sexismo, é preciso também olhar outros atravessamentos, nesse caso, particularmente, falamos da transfobia, do preconceito e da exclusão estrutural e sistemática contra pessoas trans.
Para além de ser um movimento que luta pelos direitos de pessoas trans, o transfeminismo também se constitui como uma corrente de pensamento, isto é, uma produção teórica que fornece bases para a discussão e produção de conhecimento sobre gênero, sexualidades e diversidade. Segundo Jaqueline de Jesus (2014), psicóloga, professora de Psicologia no Instituto Federal do Rio de Janeiro e transativista, embora o pensamento transfeminista tenha tido sua origem na América do Norte e Europa, ele está em construção na América Latina. Ela reforça que ele não está sendo meramente importado para cá, mas sim construído, adaptado às particularidades da nossa sociedade e ressignificado pelas perspectivas de pessoas trans e travestis que vivem aqui. A professora define transfeminismo da seguinte forma:

uma novíssima linha de pensamento e ação feminista de terceira onda, herdeira do feminismo negro, que nega o caráter biologicista culturalmente atribuído ao gênero, reconhece a interseccionalidade das identidades, critica a hierarquia de opressões e, consequentemente, aponta para a necessidade de se criticar o sexo biológico como elemento orientador dos discursos sociais, incluindo os científicos, e das políticas públicas. Em termos políticos, o transfeminismo é uma prática que valoriza as contribuições de todas as pessoas para a discussão dos direitos e a produção de saberes sobre os corpos, ao mesmo tempo em que empodera as falas, escritos e participação das pessoas trans (Jesus apud Silva, p. 21-22, 2016).
Importante mencionar que não se pode confundir transfeminismo com movimentos sociais de pessoas trans e travestis. Esse último está para além do transfeminismo, uma vez que pessoas trans já se organizavam coletivamente antes de surgir isso que hoje se nomeia transfeminismo. Além disso, como em qualquer outra corrente feminista, o transfeminismo não é homogêneo, ele também é plural em si mesmo. Contudo, ainda que haja aspectos de disputa e divergências, há alguns pontos principais que podemos elencar como base de discussão e reivindicação do movimento.
Hailey Kaas (2015) sistematiza cinco: #1
O questionamento das normas binárias de gênero e das noções essencialistas de homem e mulher que acabam por restringir as possibilidades de existência e acesso a direitos de pessoas que não se encaixam nessas normas.
#2
A despatologização das identidades trans: por muitos anos pessoas trans foram consideradas “doentes mentais” pelos manuais de saúde mental e diagnóstico, com respaldo das ciências psi e médicas. Mais recentemente, a transexualidade deixou de ser considerada um transtorno mental pela OMS, porém, essas identidades seguem sofrendo com o estigma e o problema da tutela médica e psiquiátrica que restringem a autonomia sobre seus corpos e vidas. Nesse sentido, é um ponto importante da luta transfeminista que o trânsito de gênero seja considerado socialmente como algo normal, sem que isso implique a submissão às classificações psiquiátricas, para que as pessoas tenham a liberdade de viver e expressar seus gêneros. #3
A separação entre identidade de gênero, isto é, aquilo que a pessoa é, e sexualidade, por quem a pessoa sente desejo afetivo e sexual. A sigla LGBT reúne orientações sexuais - lésbicas, gays e bissexuais - e identidade de gênero, o que acaba gerando algumas confusões. Com alguma frequência, deduz-se que o T é mais uma forma de orientação sexual, o que acaba por deslegitimar a identidade de gênero dessas pessoas, uma vez que há uma percepção na sociedade de que mulheres trans e travestis seriam uma espécie de “super gays”, e homens trans seriam “lésbicas muito masculinizadas”. Ainda, a não separação explícita entre identidade de gênero e sexualidade gera uma invisibilização de pessoas trans que não são heterossexuais e de pessoas lésbicas, bi, gays e pan que não são cisgêneras. Parece complexo, mas, quando pegamos alguma letra da sigla, por exemplo o L, de lésbicas, imaginamos, via de regra, uma mulher cisgênera que sente atração por outras mulheres cisgêneras. Não se presume que essa mulher, que é lésbica, possa ser uma travesti ou uma mulher cisgênera que tem um relacionamento com uma travesti. Do mesmo modo, se pegarmos o T e pensarmos numa travesti, costumamos imaginar uma pessoa que sente atração por homens, inviabilizando de antemão a possibilidade dessa travesti ser lésbica, bi ou pan. Portanto, embora de fato haja uma articulação entre sexualidade e identidade de gênero, é importante manter uma separação entre essas duas dimensões para não produzir invisibilizações e apagamentos.
#4
Tornar as pautas feministas de direitos reprodutivos inclusivas às pessoas trans. Ao longo da história, o feminismo tem levantado discussões sobre questões como direito ao aborto, fim da esterilização compulsória e acesso aos métodos contraceptivos (ou seja, hormônios) presumindo o corpo da mulher cisgênera como o padrão. Porém, uma vez que incluímos pessoas trans dentro do sujeito do feminismo, a contracepção, por exemplo, passa também a ser uma pauta de homens - trans, no caso. O transfeminismo chama atenção também para o fato de que o acesso a hormônios, essa demanda tão importante para as pessoas trans de forma geral, também é do interesse de mulheres cisgêneras. Afinal, seja com fins de transição de gênero ou como método contraceptivo ou tratamento de saúde, os hormônios utilizados por mulheres cisgêneras e pessoas trans são os mesmos. O que faz com que as reivindicações desses dois grupos tenham uma larga zona de convergência, já que é do interesse de ambos que o acesso a esses fármacos possa ser realizado de forma segura e garantindo autonomia. #5
Por fim, temos a defesa do uso do termo “cisgeneridade” como uma das grandes reivindicações do transfeminismo. Antes da criação desse termo, que designa as pessoas cuja identidade de gênero coincide com o sexo atribuído no nascimento, essas eram referidas como “mulheres/homens normais”, “mulheres/homens de verdade”, “mulheres/homens biológicos”, implicitamente sugerindo que pessoas trans seriam anormais, não naturais e seus gêneros falsificações. Era preciso, portanto, um nome que designasse as pessoas às quais as pessoas trans foram nomeadas em oposição. Esse movimento de nomeação das pessoas cisgêneras é importante para que a gente possa visibilizar a construção normativa das identidades de gênero. Assim como é importante falar em norma heterossexual, como aquela que produz as orientações sexuais não heterossexuais como desviantes, é preciso problematizar a norma cisgênera, ou seja, essa construção social de que o correto e o saudável é permanecer se identificando com o gênero atribuído no nascimento. Ao nomear pessoas cisgêneras como tais, pessoas trans conseguem melhor articular suas reivindicações de que seus gêneros e existências são tão legítimos quanto das pessoas entendidas como “normais”.
Por fim, convidamos você, pessoa leitora, a buscar textos e a acompanhar a produção de conteúdo e teórica de pessoas trans e travestis. E não apenas no mês da visibilidade trans, mas em todos os meses. Fala-se muito em “dar voz” às pessoas marginalizadas e de grupos vulnerabilizados, mas falhamos em perceber que essas pessoas já têm voz, é a sociedade que não lhes dá ouvidos.

BIBLIOGRAFIA

Kaas, H. (2015). O que é transfeminismo? Uma breve introdução. Transfeminismo. Acesso: https://transfeminismo.com/o-que-e-transfeminismo-uma-breve-introducao/

Jesus, J. (2014) Gênero sem essencialismo: feminismo transgênero como crítica do sexo. Universitas Humanística, (78), 241-257.

Silva, M. R. C. G. (2016). Antropofagia queer: imagem, (trans) gênero e poder (Trabalho de Conclusão de Curso em História da Arte). Universidade Federal do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro.

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